
Camilo Pessanha, João Abel Manta (1975)
CAMILO PESSANHA (1867-1926)
Eu vi a luz em um país perdido.
A minha alma é lânguida e inerme.
Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme...
Tenho sonhos cruéis; n’alma doente
Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
Embebido em saudades do presente...
Saudades desta dor que em vão procuro
Do peito afugentar bem rudemente,
Devendo, ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-me o coração dum véu escuro!...
Porque a dor, esta falta d’harmonia,
Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o céu d’agora,
Sem ela o coração é quase nada:
Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque é só madrugada quando chora.
Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
— Bom dia, companheiro — te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho
É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei...
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.
É no monte escabroso, solitário.
Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como a areia!... Foi no entanto
Que chorámos a dor de cada um...
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.
Fez-nos bem, muito bem, esta demora:
Enrijou a coragem fatigada...
Eis os nossos bordões da caminhada,
Vai já rompendo o sol: vamos embora.
Este vinho, mais virgem do que a aurora,
Tão virgem não o temos na jornada...
Enchamos as cabaças: pela estrada,
Daqui inda este néctar avigora!...
Cada um por seu lado!... Eu vou sozinho,
Eu quero arrostar só todo o caminho,
Eu posso resistir à grande calma!...
Deixai-me chorar mais e beber mais,
Perseguir doidamente os meus ideais,
E ter fé e sonhar — encher a alma.
Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor, — frio escalpelo,
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.
Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.
E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre o mármore correcto
Desse entreaberto lábio gelado...
Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.
Desce por fim sobre o meu coração
O olvido. Irrevocável. Absoluto.
Envolve-o grave como véu de luto.
Podes, corpo, ir dormir no teu caixão.
A fronte já sem rugas, distendidas
As feições, na imortal serenidade,
Dorme enfim sem desejo e sem saudade
Das coisas não logradas ou perdidas.
O barro que em quimera modelaste
Quebrou-se-te nas mãos. Viça uma flor...
Pões-lhe o dedo, ei-la murcha sobre a haste...
Ias andar, sempre fugia o chão,
Até que desvairavas, do terror.
Corria-te um suor, de inquietação...
Índice
Inscrição
:: s o n e t o s ::
Caminho
I. Tenho sonhos cruéis; n’alma
doente
II. Encontraste-me um dia no
caminho
III. Fez-nos bem, muito bem,
esta demora:
Estátua
Olvido
Madalena
No claustro de Celas
Paisagens de Inverno
I. Ó meu coração, torna para
trás.
II. Passou o Outono já, já
torna o frio...
San Gabriel
I. Inútil! Calmaria. Já
colheram
II. Vem conduzir as naus, as
caravelas,
Tatuagens complicadas do
meu peito:
Fonógrafo
Esvelta surge! Vem das águas,
nua,
Desce em folhedos tenros a
colina:
Floriram por engano as rosas
bravas
Vénus
I. À flor da vaga, o seu
cabelo verde,
II. Singra o navio. Sob a água
clara
Foi um dia de inúteis agonias.
Depois da luta e depois da
conquista
Quem poluiu, quem rasgou os
meus lençóis de linho,
Quando voltei encontrei os
meus passos
Imagens que passais pela
retina
:: p o e s i a s ::
Interrogação
Crepuscular
Castelo de Óbidos
Na cadeia
Vida
Rufando apressado,
Canção da partida
Roteiro da vida
I. Enfim, levantou ferro.
II. Nesgas agudas do areal
III. Cristalizações salinas,
Se andava no jardim,
Depois das bodas de oiro,
O meu coração desce,
Violoncelo
Ao longe os barcos de flores
Viola chinesa
Água morrente
Em um retrato
Voz débil que passas,
Porque o melhor, enfim,
Branco e vermelho
Poema final